sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Os Drummonds da Madeira e as correspondências com a Escócia

A torre da igreja da Matriz de
Santa Cruz, na ilha da
Madeira. Construída no
século XVI, ali se casaram e
foram batizados vários dos
descendentes de João
Escócio.
Link para a imagem original
Os Drummond do Brasil e de Portugal descendem quase todos de um único membro desse clã escocês, John Drummond, também chamado João Escócio ou Escórcio, como passou a ser conhecido na ilha da Madeira. O relato que faço abaixo vem de uma narrativa feita em 1681 por William Drummond, que depois foi nomeado Visconde de Strathallan. O visconde se baseou em documentos no arquivo do clã no Castelo Drummond. Suas notas foram transformadas em livro em 1831, o qual está disponível em PDF na Internet [1]. A parte sobre os Drummond da Madeira encontra-se a partir da pág. 92 (veja aqui sobre as origens remotas desse clã).

1. João Escócio
2. A redescoberta do clã
3. O reencontro de 1604
4. A descendência na Madeira
5. Notas e referências

Nesta página, há uma cronologia com os eventos citados aqui.


João Escócio

John Drummond ou João Escócio era filho de John Drummond de Stobhall e Cargill e de Elizabeth Sinclair, proprietários do castelo de Stobhall. Esse castelo tornara-se propriedade do clã com o casamento de seu avô, outro John Drummond, com Mary Montfichet, em 1345 (veja imagens recentes do castelo neste link). Uma tia de João Escócio, Annabela, tornou-se rainha consorte da Escócia quando seu marido tornou-se o rei Raibeart III (Roberto III), que reinou de 1390 a 1406.

Segundo a narrativa de Strathallan, João saiu da Escócia em 1419, passou pela França e depois foi para a Espanha, onde participou de lutas contra o reino de Granada. Este reino era o último enclave muçulmano na Península Ibérica; sobreviveria até 1492. Mais tarde, continuou a viajar e foi parar na ilha da Madeira, onde se casou com uma madeirense chamada Branca Afonso.

Sabemos dessas suas aventuras porque elas estão relatadas em um documento oficial de 1519, emitido pelo Conselho de Nobreza da Escócia, para servir de atestado legal da sua ascendência. Mais abaixo, falarei mais sobre esse documento. Strathallan ainda acrescenta que João Escócio, na sua estadia na França, teria lutado contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos, que então se desenrolava.

O arquipélago da Madeira até hoje é território português no Oceano Atlântico. Na época em que João saiu da Escócia, ela havia acabado de ser "descoberta" pelos portugueses (entre aspas, porque ela aparece em mapas pelo menos desde 1339). A tomada de posse da Madeira pelos portugueses foi um episódio da fase inicial das Grandes Navegações, que mais tarde levariam à exploração da costa da África, do sul da Ásia e do Pacífico e que culminariam na descoberta da América em 1492 e do Brasil em 1500.


A redescoberta do clã

Foi na Madeira que John Drummond passou a ser conhecido como João Escócio. O contato com seu país de origem foi perdido por algum tempo. Mas a família foi redescoberta pelo clã escocês acidentalmente em 1519, quando um navegador, Thomas Drummond, passou na ilha vizinha de Porto Santo e encontrou membros da família que ali residiam. Naquela altura, João Escócio já havia falecido havia "100 anos ou mais" (segundo o documento do Conselho da Nobreza que citei acima). Thomas conversou especialmente com um dos seus netos, Manuel Afonso Ferreira, e seus irmãos, filhos de Belchior Gonçalves Ferreira e de Branca Afonso (esta filha do João Escócio). Porto Santo é a segunda maior ilha do arquipélago, depois da própria Madeira, e é o local colocado no cabeçalho de várias cartas trocadas posteriormente entre os Drummond da Madeira e os da Escócia.

Manuel Afonso pediu a Thomas que requeresse ao clã na Escócia os documentos necessários para comprovar sua ligação com os Drummond, para que fosse também considerado parte da nobiliarquia de seu país, com todas as regalias disso decorrentes. Thomas enviou o pedido para o chefe do clã, David Lord Drummond.

Apesar de chefe, David era ainda muito jovem. Alguns primos mais experientes o auxiliaram, como Archbald, earl de Angus, e George, earl de Hyntly ("earl" é um título nobiliárquico e senhorial; o earl de Angus, por exemplo, tinha poder senhorial sobre o território de Angus). Eles decidiram enviar a requisição de Manuel Afonso ao Conselho da Nobreza da Escócia, que analisou a genealogia do clã e emitiu um atestado formal, reconhecendo que João Escócio era mesmo filho de John Drummond de Stobhall, membro do clã. Esse é o "documento do Conselho da Nobreza" que cite acima, que relatava a trajetória de João Escócio na França e na Espanha.

Thomas Drummond retornou ao arquipélago da Madeira com o atestado do Conselho e mais o brasão de armas do clã, e o entregou aos seus parentes de lá. Estava escrito em latim, que era a língua usada para documentos internacionais na época. Ele também menciona a história do húngaro que aportou na Escócia e que teria sido o primeiro dos Drummonds.

Além disso, Thomas levava uma carta pessoal do próprio David Lord Drummond endereçada a Manuel Afonso e seus irmãos (desta vez escrita em inglês), na qual chamava-os de "queridos e bem-amados primos" e os tratava como parte do clã. Na carta, dava-lhes informações adicionais sobre a família e convidava a enviar um representante do ramo da Madeira para a Escócia, garantindo que os membros do clã o tratariam como se fosse seu próprio filho.

Mas aqueles eram documentos escoceses e a Madeira era território português. Mais tarde, a família na Madeira decidiu ir mais além e conseguir um documento do governo de Portugal. Enviaram um parente, Diego Peres Drummond, até lá, para fazer uma requisição ao rei D. João III. Este aceitou e o documento oficial que emitiu, datado de 19 de março de 1538, descreve o brasão de armas dos Drummond.


O recontato de 1604

Os documentos ficaram arquivados em um cartório em Funchal, capital do arquipélago da Madeira, na própria ilha da Madeira. Porém, apenas em 1604 alguém da família se interessou ou pôde em fazer uso deles. Strathallan justifica esse interregno dizendo que a correspondência entre os Drummonds da Madeira e da Escócia havia sido interrompida devido a conflitos entre a Inglaterra e a Espanha e que, por isso, os madeirenses não puderam fazer uso do status nobiliárquico que lhes fora concedido.

Tratava-se da guerra de 1585-1604. Seu episódio mais conhecido foi a destruição da Invencível Armada espanhola pela esquadra inglesa em 1588 (com o auxílio luxuoso de uma tempestade que fez a maior parte do trabalho). A Espanha logo se recuperou, mas a derrota foi o prenúncio do domínio inglês dos mares a partir do início do século seguinte e que durou até a Segunda Guerra Mundial. O conflito foi um dos vários desdobramentos das guerras religiosas que assolaram a Europa ocidental desde o início da Revolução Protestante em 1517.

Essa guerra afetava a relação Madeira-Escócia porque, naquela altura, ambos os lados da correspondência estavam conhecendo o fenômeno da união dinástica. O rei da Espanha herdou o trono de Portugal em 1580 e os dois países permaneceram unidos por 40 anos. E o rei da Escócia herdou os tronos da Inglaterra e da Irlanda em 1603, união que durou 85 anos. O resultado foi que tanto Portugal quanto a Escócia herdaram os problemas da guerra entre Inglaterra e Espanha (não só: o Brasil herdou os da guerra de independência da Holanda contra a Espanha, o que levou às invasões holandesas no Nordeste brasileiro).

Com o fim da guerra, em 1604 os descendentes de Martim Afonso Ferreira detectaram uma oportunidade da qual resolveram se aproveitar. Para implementar o tratado de paz, que havia sido assinado em 28 de agosto daquele ano, o embaixador da Inglaterra, Charles Howard, esteve pouco depois em Madri, acompanhado do earl de Perth, James Drummond. Na ilha da Madeira, um bisneto de Martim Afonso Ferreira, chamado Martim Mendes de Vasconcelos Drummond, soube que seu importante parente de Perth estava na capital espanhola. E também que o rei da Inglaterra devia grandes favores a ele e sua irmã, Jean Drummond, condessa de Roxburgh.

Martim apelou a eles para intermediarem uma carta de recomendação ao rei da Inglaterra e também que os embaixadores espanhóis na Inglaterra intermediassem outra carta de recomendação para o rei da Espanha. Assim foi feito. O próprio rei da Inglaterra, James I (que também era James VI da Escócia por causa da união dinástica), enviou uma carta ao rei Felipe II da Espanha recomendando que também concedesse aos Drummond da Madeira os mesmos "favores e mercês" que os reis de Portugal haviam concedido.

O pobre mensageiro que levava o resultado positivo das petições até a Madeira, William Crawford, foi assaltado por piratas no meio do caminho e teve que aportar na costa da África (provavelmente no atual Marrocos). Só conseguiu chegar na Madeira dez anos depois (veja aqui a carta que enviou da Madeira à Escócia, em inglês). Mas conseguiu entregar sua encomenda. As correspondências entre os Drummond da Madeira e os earls de Perth continuaram até 1634. No livro de Strathallan [1] há mais três, escritas em latim e em inglês, a partir da pág. 102. Como ainda não pude traduzir as em latim para ver seu conteúdo em detalhe, paro esta narrativa por aqui.


A descendência na Madeira

A descendência dos Drummond da Madeira está descrita nas genealogias madeirenses, como o "Nobiliário Genealógico das Famílias", de Henrique Henriques de Noronha, publicado em 1700 (de 3 volumes) ou os "Apontamentos para a genealogia de diversas famílias da Madeira", de Felisberto Bittencourt de Miranda, publicado em 1888. Todos estão disponíveis em PDF no site do Centro de Estudos de História do Atlântico (P.S. de 06/02/2015: parece que esses livros foram retirados desse site; não consegui mais encontrá-los lá). Há também uma versão em DVD comercializada.

Vários membros da família Drummond da Madeira foram ao Brasil. Na carta enviada pelo rei da Inglaterra, James I, ao rei da Espanha, Felipe II, de 1613, é mencionada a presença de membros do clã no nosso país. O mesmo aconteceu em uma das cartas trocadas pelos Drummond da Madeira e pelo earl de Perth, datada de 1623 [2]. Antes disso, um certo Manuel da Luz Escórcio Drummond apareceu com sua mulher e seus filhos em Santo André, no litoral de São Paulo. Ali, casou-se uma segunda vez, depois de enviuvar, e mudou-se para o Rio de Janeiro. Descendentes seus apareceram em Minas Gerais no início do século XVIII [3]. Outros Drummond do Rio de Janeiro apareceram na Bahia, como Domingos Gonçalves Drummond, natural de Cabo Frio, que foi para Salvador no século XVIII [4].

Mas os Drummond de Minas são em grande maioria descendentes de um único imigrante, Antônio João de Freitas Carvalho Drummond, que nasceu em 1723 em Funchal, na Madeira. No livro de Felisberto Bittencourt de Miranda, no título "Carvalhos de S. Gil", ele aparece como "Antônio Carvalho, que foi para o Brasil". Veja mais sobre Antônio João nesta outra postagem deste blog.


Notas e referências

[1] STRATHALLAN, Visconde de (William Drummond). "The genealogy of the most noble and ancient house of Drummond" (PDF). A. Balfour & Co., Edinburgh, 1831; impressão privada, 1889. Primeira edição em livro: 1681.

[2] Carta dos irmãos Remígo da Assunção Drummond, Antônio de Freitas Corrêa Drummond e Simão de Freitas Corrêa Drummond ao earl de Perth, John, Lord Drummond. In: Strathallan (1831; 1889) [1], pág. 105.

[3] LEME, Pedro Taques de Almeida, "Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica", vol. II, título "Toledo Pizas", cap. II, § 2.o, pág. 231. As informações de Pedro Taques sobre Manuel da Luz Escórcio Drummond e seus descendentes estão resumido em LEME, Luiz Gonzaga da Silva, "Genealogia paulistana", vol. V, Título "Toledos Pizas", cap. II, § 2.o, pág. 507, nota (1).

[4] Processo de genere de Fortunato Cândido Drummond Rocha e João Ricardo da Costa (Conceição da Praia, 1806). Arquivo do Laboratório Reitor Eugênio de Andrade Veiga (LEV), Universidade Católica de Salvador (UCSal), Cx. 7; E. 1; 23 Ge-20; no. 24.

12 comentários:

  1. Como eu temia. Você não está estudando o Manoel da Luz Escórcio Drummond. Que pena! Eu descendo dele, mas a ascendência dele é meio nebulosa, tenho encontrado informações diferentes nas várias pesquisas que já vi. Como há muitos descendentes dele no Brasil, será que sobraria um tempinho para você pesquisá-lo também? Grata. Eneida Rangel - S.Paulo-SP

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    1. Olá, Eneida. Pois é, todo mundo fala do Antônio João, mas nunca estudei o Manuel da Luz, tenho apenas a informação que vi no Pedro Taques que mencionei no penúltimo parágrafo do texto acima. De modo que para mim já é um lucro conhecer algum descendente dele. Com certeza você sabe bem mais do que eu sobre essa família.

      Respondendo à sua pergunta, infelizmente é improvável que eu pesquise a família do Manuel da Luz no curto ou médio prazo, pois meu foco está em outras coisas. Na verdade, neste blog, nesta fase inicial, estou "desovando" uma série de resultados que tenho obtido desde 1999. Sobre as pesquias que estou realmente fazendo, neste momento não estou pesquisando os Drummond, mas outras famílias, principalmente de Conselheiro Lafaiete, MG. Nos últimos 15 dias, fiz um estudo intenso da origem remota dos Drummond para fazer o texto acima, mas foi um "desvio de rota". Vou continuar desovando coisas aqui, de diversas famílias, pelos próximos meses. Pretendo também escrever algo sobre como pesquisar genealogia, primeiro para iniciantes e depois para não tão iniciantes.

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    2. Sua bela pesquisa sobre a ascendência de João Escócio (John Drummond) será importante para os descendentes, ente os quais me incluo. A parte nebulosa é justamente a ligação de Manuel da Luz até João Escócio. Seriam 3 gerações separando um do outro. Mas já tenho encontrado filiações diferentes para o Manuel. Caso você esbarre em alguma informação sobre ele, por favor anote para futuras pesquisas. Desejo-lhe sucesso também na nova empreitada, escrevendo sobre como pesquisar. Muita gente quer fazer mas não sabe nem por onde começar.

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    3. Hm, encontrei um processo de genere no Arquivo Eclesiástico de Mariana de um descendente do Manuel da Luz, o padre Carlos Pedroso da Silveira (Monsenhor Horta, 1756 - processo n.o 03-0400). Esse processo diz que esse padre tinha a seguinte árvore de ascendentes:

      1. Carlos Pedroso da Silveira

      Pais:
      2. Francisco Álvares Corrêa
      3. Maria Pedroso da Silveira

      Avós:
      4. Francisco Álvares Pereira
      5. Mécia Bicudo
      6. Carlos Pedroso da Silveira (sujeito famoso na história de Minas)
      7. Isabel de Sousa Ébano Pereira

      Bisavós (pais de 6 e 7):
      12. Gaspar Cardoso Guterres
      13. Grácia da Fonseca Rodovalho
      14. Gibaldo Ébano Pereira
      15. Inês de Moura

      Sendo que esse Gibaldo Ébano Pereira aparece no Pedro Taques (mesmo local da referência no texto do blog) como bisneto do Manuel da Luz Escórcio Drummond.

      Posso te mandar minhas notas desse processo por e-mail.

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  2. Saudações! também gostaria de obter possíveis fontes de pesquisa para Manuel, eu sou descendente dele e encontrei duas filiações para ele. Qualquer informação a mais é bem-vinda!
    Sou gaúcha e meu ramo descende dele através dos casais açorianos que vieram para Piratini povoar estas terras por convite de D. João.
    Obrigada!

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  3. Manuel da Luz Escorcio Drummond (1540 Ilha da Madeira - 1639 Brasil) é meu antepassado. Ele era filho de Joana Escorcio e João Gonçalves. Joana Escorcio era filha do padre Diogo Drummond Escocio e Joana Fernandes. Diogo Drummond Escocio era filho de John (Juan) Drummond e Branca Afonso. Letícia Maria Mello.

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  4. Ola conheço todos os descendentes
    aqui no Brasil pois somos primos.
    meu e-mail é doroty.Dimolitsas@uol.com.br

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    1. Será que conhece os que não assinam, como você mesmo?

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  5. Caros,
    Alguém conseguiu traçar a ascendência de Leandro Teixeira Escocia de Drummond? Ele teria nascido na Madeira por volta de 1640 e provavelmente migrou para Pernambuco.

    Obrigado!
    Pedro Alves.
    pedro.canafistula@gmail.com

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  6. Na Nobiliarchia Pernambucana de Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca, vol II-253 (edição da Biblioteca Nacional 1935), há notícia de Leandro Teixeira Escócia de Drumoud.

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  7. O mais bacana de tudo é que o primeiro Drummond a chegar em Itabira-Nova Era, isto por volta de 1740, foi o Manoel Telles de Meneses, sendo que ele era neto de Francisca Escórcio Drumond e filho de Pedro Mendes de Castro e Francisca Isabel Moniz Telo. Em São José da Lagoa (Nova Era) casou-se com Rita da Silva Bueno.

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  8. Agora que descobri seu blog Roberto e achei sensacional, obrigada por todas essas informações. Eu não sei de quem veio minha descendência mas minha avó ( que tinha o sobrenome Drumond) era de Conselheiro Lafaiete-Mg. Caso você descubra mais informações compartilhe conosco se possível. Obrigada.

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